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Uma pesquisa publicada este mês pelo periódico Headache aponta que as mulheres têm uma piora de suas crises de enxaqueca quando estão no período de transição para a menopausa, especialmente aquelas que têm enxaqueca no período menstrual.
O estudo envolveu 3664 americanas com uma média de 46 anos de idade e também mostrou que, após instalada a menopausa, as crises de enxaqueca não dão muita trégua. Isso é um resultado contrário a estudos anteriores e precisa ser confirmado por novas pesquisas. Até o presente estudo, a menopausa era vista como um período de calmaria para as mulheres.
No período de transição para a menopausa 60-70% das mulheres apresentam sintomas que incluem calores e suores noturnos, redução da libido, irritabilidade e dor de cabeça. A mudança das flutuações hormonais nesse período é vista como o maior candidato para explicar essa maior frequência de crises de enxaqueca.  Sabe-se também que a menopausa cirúrgica, após retirada dos ovários, costuma provocar crises ainda mais frequentes que a menopausa natural.

Uma série de pesquisas tem demonstrado que mulheres com diagnóstico de enxaqueca têm menor risco de câncer de mama. Mas qual a relação entre essas duas condições?

A enxaqueca poderia funcionar como um fator protetor por favorecer uma vida com hábitos mais saudáveis, com menos consumo de álcool e cigarro (comportamento de evitação) e menos uso de terapia de reposição hormonal. Esses são conhecidos fatores desencadeantes de crises de enxaqueca e que também aumentam o risco de câncer de mama.

Outra hipótese é que o maior consumo de antiinflamatórios por mulheres com enxaqueca poderia ser implicado no menor risco de câncer de mama, já que o uso dessa classe de medicação está associado a um menor risco desse tipo de câncer.

Não é de se espantar uma relação entre a enxaqueca e o câncer de mama, já que ambas são doenças intimamente associadas aos hormônios sexuais. A enxaqueca é duas a três vezes mais comum entre as mulheres e o período em que a mulher tem mais chance de ter crises é justamente na fase do ciclo menstrual em que os níveis de estrogênio caem abruptamente: nos dias que antecedem a menstruação. Além disso, mulheres que usam pílula anticoncepcional têm mais crises na semana livre de hormônios. Por outro lado, durante a gravidez, época em que os níveis de estrogênio estão elevados, as mulheres costumam ter menos crises de enxaqueca.

 

Antes da puberdade, os meninos até têm um pouco mais de enxaqueca que as meninas, mas aos 20 anos a freqüência já é duas vezes maior entre as mulheres e três vezes maior aos 40 anos.

O candidato mais forte para explicar essa diferença é o perfil hormonal das mulheres e temos várias pistas que apóiam essa idéia: 1) enxaqueca passa a ser mais frequente entre elas a partir da puberdade; 2) mais de 50% apresentam enxaqueca no período menstrual e cerca de 70% das enxaquecosas têm crises mais freqüentes e/ou mais fortes nessa fase do ciclo; 3) a maioria tem menos crises na menopausa e durante a gravidez. 

Outra possível explicação é uma diferente resposta das mulheres à percepção do estresse e da dor. Essa é uma idéia que é apoiada por estudos de ressonância magnética que apontam que os circuitos neuronais que envolvem o processamento de emoções são mais robustos entre elas, tanto do ponto de vista estrutural como funcional. Nas mulheres, estímulos dolorosos estimulam esses circuitos de forma mais intensa. Essas peculiaridades são uma preciosa janela para a melhor compreensão das razões que fazem as mulheres terem distúrbios de dor de forma mais frequente, e isso não se limita à enxaqueca. 

Problemas de saúde que são muito freqüentes e que têm base genética inequívoca, como é o caso da enxaqueca, fazem-nos sempre refletir se não poderia haver uma vantagem evolutiva para que tantos indivíduos apresentem essa condição. Ao pensarmos nos fatores que comumente desencadeiam crises de enxaqueca (ex: jejum prolongado, estresse, cheiros fortes), poderíamos até compará-los a situações predatórias. Essa é uma forma de encarar a enxaqueca como um aliado e não como um inimigo, um alarme cerebral que nos avisa quando estamos fora do nosso equilíbrio ideal. O cérebro das mulheres então teria evoluído mais do que o dos homens? As mulheres são mais expostas a “situações predatórias”?

Hipoteticamente, ao longo da evolução da espécie muitos se beneficiaram desse alarme e alguns poucos pagam o preço. Estes são os que têm crises de enxaqueca fortes e frequentes. Que bom que a medicina também evoluiu e hoje temos inúmeras opções de tratamento para essa condição neurológica.

 

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A enxaqueca, também conhecida como migrânea, é uma disfunção cerebral com reconhecido componente genético. Indivíduos que têm familiares com enxaqueca têm mais chance de apresentá-la, mas nem sempre. As crises de enxaqueca podem se iniciar já na infância, mas é mais freqüente entre os 25 e 55 anos, a fase de vida economicamente mais produtiva do indivíduo.

 

A enxaqueca afeta cerca de 20% das mulheres e é três vezes mais comum que nos homens. A dor de cabeça costuma ser forte, unilateral, de caráter latejante, com piora às atividades rotineiras, freqüentemente associada a náuseas, intolerância à luz, som e odores. As crises habitualmente duram entre 4 e 72 horas.

 

Menstruação. Cerca de 50-60% das mulheres com enxaqueca apresentam crises durante a menstruação e isso está associado ao súbito declínio dos níveis do hormônio estrogênio nessa fase do ciclo menstrual. Além disso, até 20% das mulheres com enxaqueca tem crises somente no período perimenstrual. O primeiro dia antes da menstruação é o dia em que a mulher tem mais chance de ter uma crise. Um pouco mais de 15% das mulheres com enxaqueca tem sua primeira crise na época da sua primeira menstruação.

 

Pílula anticoncepcional. O uso de contraceptivos orais pode dificultar o controle das crises, e pílulas com menor concentração de estrogênio podem favorecer o controle, inclusive no caso da enxaqueca menstrual.

 

A mulher deve evitar o uso de pílula anticoncepcional com conteúdo de estrogênio, especialmente se tiver mais de 35 anos de idade, se for portadora de fatores de risco vascular (tabagismo, hipertensão arterial) ou se tiver história pessoal ou familiar de eventos vasculares (trombose). A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a enxaqueca com aura como categoria 4 na indicação do uso de pílula anticoncepcional com conteúdo de estrogênio, o que quer dizer que é uma condição de saúde em que os riscos do uso da pílula são inaceitáveis. Riscos, nesse caso, são os relacionados ao derrame cerebral.

 

O conceito de AURA é o de um aviso, um sinal de que uma crise de enxaqueca está por começar, mas também pode ocorrer já na fase da dor de cabeça. Entre 15 e 30% das pessoas que sofrem de enxaqueca podem experimentar o fenômeno, habitualmente como sintomas visuais (pontos luminosos, flashes em ziguezague, falhas no campo visual), geralmente durando menos de uma hora. A AURA pode se apresentar como formigamento de um lado do corpo, dificuldade para falar e raramente como perda de força de um lado do corpo. Algumas pessoas experimentam aura sem apresentar dor de cabeça.

 

Gravidez. Durante a gravidez, as crises costumam melhorar em 60-80% das mulheres. Deve-se evitar tratamentos profiláticos medicamentosos devido a potenciais conseqüências ao feto. Algumas medicações sintomáticas são contra-indicadas na gravidez.

 

Uma série de estudos demonstra que mulheres com enxaqueca apresentam maior risco de apresentar hipertensão arterial na gravidez (pré-eclâmpsia) e bebês com baixo peso. Além disso, também é maior o risco de eventos vasculares nesse período entre as enxaquecosas, e aí podemos incluir derrame cerebral, infarto do coração e tromboembolismo pulmonar.

 

Lactação. Após o parto, as crises voltam a piorar em até 50% das mulheres no primeiro mês. Há evidências de que a amamentação confere proteção às crises nessa fase.

 

Menopausa.  Até 80% das mulheres apresentam melhora das crises de enxaqueca após a menopausa espontânea. Entretanto, por volta de 20% das mulheres começam a ter crises após os 50 anos, e raramente após os 60 anos. No caso da menopausa cirúrgica, há uma tendência de piora das crises de enxaqueca em dois terços das mulheres.

 

Já é consenso que a indicação de terapia de reposição hormonal [TRH] para a melhora de sinais e sintomas da menopausa deve ser restrita a mulheres com sintomas moderados a severos e utilizada pelo menor tempo e com mínimas doses possíveis. Essas recomendações são decorrentes do fato de que a TRH prolongada eleva o risco de câncer de mama, trombose nas veias e derrame cerebral. No caso da enxaqueca, mesmo a com aura, a TRH com doses baixas de estradiol pode ser considerada.